Esta foi uma semana de despedida. A vó Wanda se foi e com ela um pouco do açúcar do mundo. E do sal também. Ela era uma mulher forte, independente, cheia de energia, opiniões e histórias. Não era uma vozinha doce e fofinha, era uma Mulher. Com suas ranzinzices, suas vontades, a última palavra em casa e seu punhado de julgamentos também. Ela me ensinou a ser um bocado da mulher sonhadora e de algum modo destemida que eu me tornei. A viver a vida sem economizar no viver e no sentir. A ser prática, que ela também tinha esse lado, sem deixar de se deslumbrar, principalmente com o mundo, principalmente com a lua, os gatos e os passarinhos.
Talvez venha um pouco daí uma pitada das minhas contradições.
Eu não tive tempo de contar para ela sobre a Gûyrá. Ela ia amar essa ideia. Foi ela quem ficou mais feliz quando eu disse que ia trabalhar embarcada em navio de cruzeiro, lá quando eu era uma jovem adulta. Ela sabia que eu não tinha jeito de ficar em um lugar só, que passarinho nasce para voar.
A vó sabia que o mundo é pra ser visto. “Nós vamos anoitecer na Serra” ela disse já perto do pé do primeiro morro, e dissipou minha irritação com voltar da praia no fim da tarde, impedindo de aproveitar o resto do dia no mar e o começo da noite na cidade. Era algo pra ser visto, sentido com os olhos e com o coração. E eu lembro dessa cena belíssima até hoje. As montanhas se tingindo de laranja engolindo os carros.
Ela é tão parte desse projeto! Porque é ver, mas é também compartilhar. A vó Wanda passava café, chá, servia biscoitos, bolo, pão na chapa e o que mais tivesse logo que qualquer visitante chegava. E fazer comida era uma atividade familiar e coletiva, com os pratos mais elaborados sendo preparados por mais de um dia na cozinha cheia, servidos em um almoço de domingo com toda a gente a papear e rir. Era como se tivesse um Natal por mês na casa dela.
Mas nem sempre tinha comida por lá, porque ela também não era de parar em casa. Se você queria visitá-la, tinha que avisar que dia ia. Se chegasse de surpresa e desse a sorte grande de encontrá-la em casa, e o azar supremo de não ter muito para o café, sem tempo para correr na padaria, ela ia no quintal e colhia uma flor para ti. Por muito tempo, eu achava que isso era natural do amar, compartilhar tudo e querer que o outro desfrute dos sabores e belezas da vida contigo. Só depois descobri que isso era uma linguagem não tão universal assim, mas que eu ainda falo.
E é isso que é a Gûyrá. A vontade de ir além e de compartilhar o mundo e suas delícias.
Então, esse julho é de adeus e de boas-vindas! Um toque agridoce, do jeito que a vó Wanda gostava.


Que texto lindo! Ela ia amar ver a Guyrá tomar forma e ganhar o mundo! A saudade fica e os ensinamentos também.